O Caminho chamado Fé

Era uma quarta-feira qualquer. Já devia ser a segunda garrafa de vinho. A conversa, como sempre, estava ótima. A companhia da Rita é sempre a melhor do mundo. De repente ela solta a isca:


  • O pessoal está organizando uma caminhada.

  • Eu não vou.

  • Mas desta vez vai mais suave. Não vai ser aquela loucura do Caminho da Fé do ano passado.


O Caminho da Fé de 2020 foi uma lição para mim. Encontrei pessoas, conheci limites, aprendi coisas, me perdi e me encontrei. Foi uma das coisas mais impactantes que fiz na vida. Mas daí a fazer de novo?


  • Eu não vou.

  • Tá bom. Quer mais um vinho?


Este tipo de conversa com a Rita “Eu sei como começa, mas ninguém sabe o fim...”; melhor, não sei como começa, mas sempre sei o fim.



03/09 – Sexta-feira – O Violeiro


Sou violeiro caminhando só

Por uma estrada caminhando só (*)


O encontro foi atrás do Memorial da América Latina. O ônibus, mais espaçoso.

Aliás, tudo era “mais” neste ano.


Mais gente, mais apoio, mais organização.


Este ano, parte da receita arrecadada no evento foi destinada para um projeto tocado pelo Tavares e pela One9Social que, pelo esporte, ajuda algumas comunidades na construção de uma sociedade mais justa. Isto colocou mais propósito na jornada de todos.


Para não atrasar a chegada à pousada em Paraisópolis, foi decidido que o ônibus não pararia para o jantar e que cada um deveria trazer um lanchinho. Lanchinho? Tortas deliciosas, sanduíches de tirar o fôlego, sobremesas dignas de uma vitrine na Pierre Hermé (ahhh, aquele brownie...).


No fundo, como mágica (e com um pouco de vinho e cerveja) todos colocando o seu lado mais adolescente para fora, do mesmo jeito que as deliciosas e saudosas viagens do tempo de colégio.


A pousada também parecia mais bonita do que no ano passado. O charme dos casarões de fazenda presente em cada detalhe. Um encanto. Pode ser que tenham sido meus olhos. É muito bom voltar para um lugar onde sua alma chama de seu.


Desta vez eu também estava “mais”.


Mais pesado, mais despreparado, mais desesperado.


A organização, primorosa em todos os detalhes, nos ofereceu uma pulseira com nosso nome e um código. Com este código, seria possível, em caso de algum contratempo maior, acessar um site com, além dos nossos dados pessoais, as questões médicas mais relevantes. Confesso que o termo “contratempo maior” só aumentou o desespero, mas pelo menos eu tinha o conforto de saber que, em caso extremo, saberiam para onde mandar o corpo.


Hora de dormir. Tensão no ar. Está chegando a hora. Está bem mais próximo do que eu gostaria.


  • Está tudo bem, pensava comigo. Subo no carro de apoio na hora que eu cansar, precisar ou quiser.

  • Boa noite John Boy.

  • Boa noite Mary Hellen.


04/09 – Sábado – O Caminho


Parece um cordão sem ponta

Pelo chão desenrolado

Rasgando tudo que encontra,

A terra de lado a lado (*)


Todos acordando e chegando para o café da manhã.


- Dormiu bem?

- Preparado?


Todos contando os seus causos. Todos preparando o espírito.


Está chegando a hora.


As pessoas começam a se juntar na frente da pousada. Tocas, bonés, chapéus. Shorts, bermudas, calças. Manga curta, manga comprida, regata. Mochila, pochete, sacola. O dress code de quem sai para caminhar/correr grandes distâncias é mesmo uma coisa peculiar. Mas acho que isto fica para uma outra história.



Informações técnicas sobre o dia que teremos. As setas que indicam o caminho. Os cuidados para não se perder (vou ter que ouvir isto para o resto da minha vida). O ritmo de cada um. O carro de apoio que vai estar a cada 4 km. As subidas e descidas. Os 900 metros de altimetria da subida da Luminosa. Algumas pessoas ainda continuam sorrindo. A ignorância, às vezes é uma dádiva.


Eu só pensava comigo:


- Coitadinhos...


Tudo pronto, mas, para mim, a jornada só começa quando o Marcelo nos faz pensar que estamos fazendo o Caminho da Fé. Poderia ter qualquer nome. Caminho para a Basílica, Caminho para Aparecida, Caminho dos Peregrinos, mas não, é o Caminho da FÉ e com esta reflexão, ele nos convida a olharmos para dentro. Dentro de nós. O que nos move? Em que acreditamos? E, acima de tudo, lembrar que a fé começa acreditando em nós mesmos.

Pronto, podemos começar.


O Marcelo também nos lembra que não existem florestas de ipês amarelos. Mas existem ipês amarelos nas florestas. E assim, começamos a ser, cada um no seu ritmo, os ipês amarelos distribuídos na “floresta” do caminho.


Os grupos começam a se formar. Os iguais se reconhecem e se atraem. A organização não deixa ninguém sem apoio.

- Ninguém fica para trás.



As estradas por onde passamos são lindas. Acho que se for para andar sem contemplar as belezas que vão surgindo umas após as outras, é melhor ficar na esteira. Milagres por todos os lados. O limoeiro carregado. A água correndo logo ao nosso lado. As setas amarelas. As flores umas mais lindas que as outras. A paisagem maravilhosa. Tudo no caminho tem um poder de oração.


“Quanto maior o desafio, maior a vitória...”

“Uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida...”


As palestras, livros e pensamentos sobre motivação estão cheias de frases deste tipo.


Provavelmente estes palestrantes, autores e filósofos nunca subiram a Luminosa.


Depois de umas 4 ou 5 horas de subidas e descidas chegamos ao distrito que dá nome à famosa subida. O distrito de Luminosa. Um amontoado de casas e pequenos comércios em torno de uma igreja no município de Brazópolis/MG.


A parada mais longa do primeiro dia acontece justamente na frente desta igreja. Bancos de cimento, sombra gostosa, sorvete na padaria da esquina, pipiroom (uma pequena trégua para os matinhos do caminho). Hora de consertar os pés, comer alguma coisa, descansar um pouco.


Lembro bem que adorei esta parada no ano passado. A ignorância é amiga íntima da felicidade.

Aquilo que vem pela frente é desumano. 10 km de subida praticamente sem sombra com apenas 2 paradas. A pousada da Dona Inez com seu chuveiro celestial e o restaurante Oásis com sua cerveja obrigatória.


Desta vez foi só o tempo de pegar os carimbos da credencial e seguir em frente.


O sentimento que se tem nesta subida é que, quando você acha que tudo está perdido, você descobre que ainda tem muito a perder.



Mas não há como negar que, ao chegar ao asfalto, que avisa o fim da subida, acaba aflorando um sentimento difícil de explicar. Um misto de orgulho, exaustão, dever cumprido, sede, felicidade. Talvez seja somente falta de oxigênio no cérebro.


Mas o desafio do dia ainda não acabou. Ainda faltam 4 intermináveis quilômetros margeando o asfalto. A cada curva a gente acha que vai chegar. Mas, depois de uma curva vem sempre outra curva. A entrada do caminho para a Pedra do Baú é sinal de que estamos muito perto.


A visão da entrada da pousada Barão Maltês é praticamente a visão do céu.


Acho que a recepção para quem chega, feita pelo pessoal que chegou antes juntamente com os organizadores, é uma das partes mais emocionantes do dia. Olho marejado. Deve ser um cisco.


O banho após o dia de caminhada é seguramente o momento mais especial. O divisor (literalmente) de águas da dignidade. O momento de retomar a posse do seu corpo.

Comida deliciosa. Vinhos e causos. Mais vinhos e mais causos. Sentimento de orgulho.

A Rita e eu engatamos numa conversa boa e fomos os últimos a ir para o quarto dormir. Já era tarde. Umas 20h30.


Tá bom. Sou Nutella. Dormir em 12 pessoas num quarto? Impensável para alguém que só aprendeu a andar de sandália havaiana depois de casado. Mas a forma como o dia passa não deixa nem isto passar pela minha cabeça.


As brincadeiras de adolescente voltam a aparecer, mas logo vão sendo substituídas pelo silêncio de um sono profundo.


Quem dorme cedo acorda mais cedo ainda. Alguém vai ao banheiro. É o suficiente para espantar o sono de vez e começar a fazer minhas orações e reflexões. Um filme sem começo e sem fim a passar continuamente. Imagens, pessoas, situações, sentimentos e emoções. Só vinham coisas boas. Uma sensação de acolhimento gostosa de estar tão perto de gente com a mesma jornada, mesmo cansaço, mesmo propósito.


A segunda noite é a melhor de todas.



05/09 – Domingo – Os encontros


Segue em frente, violeiro,

Que eu lhe dou a garantia

De que alguém passou primeiro

Na procura da alegria

Pois quem anda noite e dia

Sempre encontra um companheiro (*)


Acordar bem cedo.


O café da manhã do segundo dia foi delicioso. Talvez tenha sido o estado de espírito de todos ou o cheirinho do fogão à lenha mesmo. Para mim, era o medo se transformando em alegria.


O protetor solar, o gel para pés, o micropore nos mamilos, a proteção nos dedos dos pés...

Hora de começar.


Não basta o dress code ser peculiar. Tem que ser diferente do dia anterior.


Todos reunidos. Fotos, instruções, caminhada.